páscoa

Maria carregava seu filho no sol ardente de janeiro. Nem todas as preces do mundo poderiam fazer com que a febre baixasse e seu pequeno embalado melhorasse. Naquele dia, Maria sentiu todos os homens que sorrateiramente partiram, deixando-os perdidos no mundo. Viu claramente todos os momentos em que o abandono tornou a ela e aos filhos ainda mais reféns.

Maria trabalhava vinte horas por dia, deixava o menino com a filha mais velha. Maria repartia migalhas de pão que não se multiplicavam milagrosamente. Maria nunca foi capaz de transformar água em vinho, quanto menos em remédio. Os trocados que Maria ganhavam não podiam comprar nem xarope pro seu menino.

Maria, que acreditava em santos, nunca havia encontrado um Jesus que impedisse as pedras de serem atiradas. Maria nunca havia conhecido um bom samaritano que fosse. Nunca teve permissão de ficar dentro de uma igreja. Mas Maria rezava. Chorava e se confessava diariamente. Maria dava mais aos pobres, seus dois filhos, que poderia um dia dar a ela mesma.

Chegando fevereiro, a febre consumia já os dois, ela e o pequeno. Maria deixou então de comer para que sobrassem migalhas a mais. E, mesmo contra sua vontade, Maria não resistiu à chegada de abril. Era sexta-feira da paixão quando Maria partiu sem mais desculpas.

Mas, neste domingo, Maria não ressuscitou.

flor

Guardava uma flor pequenina atrás da orelha. Estava já murcha enquanto caminhava despreocupadamente pelas ruas desertas e escuras de abril. Pétala a pétala, desmanchou-se seu coração aguado ao redor de si. Caminhando em círculos, encontrou finalmente a saída no fim da rua. Ali estava o último dos jardins. Observou cada flor e cada pétala separadamente, mas despediu-se sem nada levar. Pois que leve já estava há muito, suas pernas voando como balões coloridos em sintonia com o vento. Havia tido, uma vez, uma flor. E mesmo morta ou despedaçada ou frágil ou esquecida, era sua. Vivia em memória e em seus cabelos sem cor. Vivia em um sorriso fraco e persistente. Vivia, ainda que morta. Ainda que em passado e nunca em futuro.

Hunger

Você sente fome enquanto assiste ao Jornal Nacional. Devora com os olhos cada atrocidade do mundo. Dispensa garfo e faca, usa as mãos. Lambuza-se. Checa a despensa e ela está abarrotada do dinheiro lavado, do silêncio comprado. Sente sede, mas sua poluição secou os rios. Prepara, então, o cálice de sangue. Vomita mentiras para abrir espaço para a sobremesa. Preparem a mesa: o pão será servido aos porcos. Quanto ao circo, tire a televisão do mudo que já é hora da novela.

“Feliz” dia

Toda mulher sofre machismo. Pior que isso, muitas mulheres praticam o machismo, ensinam a seus filhos, propagam a intolerância e o preconceito. São elas também vitimas, criadas para seguirem a um padrão que não ousam questionar. Alienadas, caladas. E as mulheres que gritam tornam-se então, putas. Tornam-se baderneiras e mal comidas. Tornam-se terroristas do feminismo.

São tantos rótulos que acabamos criando milhares de regras estúpidas. Se você é vaidosa e gosta de se cuidar, não pode ser feminista. Se você quer ter um marido e “se dar o valor”, não pode ser feminista. Afinal, feminismo é sinônimo de ditadura feminina, é um movimento que visa ridicularizar e diminuir os homens. Feministas são a favor de castrar, escravizar e torturar homens. E, assim, mulheres “de família” sentem vergonha e até mesmo pavor de carregar suas próprias bandeiras.

A luta que deveria servir para libertá-las, faz com que se tornem ainda mais vítimas, ainda mais oprimidas, ainda mais contidas. E calam-se tanto que quase perdem a voz. Sentem medo do barulho, da confusão, do caos. E nada muda sem o caos.

Mulheres, não percam suas vozes. Gritem, xinguem, não escutem os rótulos que determinam seus comportamentos. Você não é menos feminista por ser feminina. Você não é menos bonita por decidir não usar salto ou maquiagem. Você não é menos delicada e atraente por decidir não se depilar. Você não é menos independente se decidir cuidar da casa e dos filhos e não trabalhar. Você não é menos respeitável se gosta de usar saias curtas e decotes.

Você não é menos humana por ser mulher.

Circo de horrores

O circo continua porque quem está rindo são os próprios palhaços. Os que disso vivem e não veem mundo mais afora.

O circo continua, pois as palmas que ecoam, distorcidas, malignas, venenosas, são usadas tão displicentemente como se usam os adjetivos.

Quanto ódio mascarado, subjuga-se toda uma classe, toda uma vida. E os palhaços riem, aplaudem de pé, como se não enxergassem que a piada são eles.

Os minutos esgotam-se sem que uma só palma fosse reprimida, um só grito de horror fosse proferido. Gritemos! Deixemos de aplaudir. É hora de vaiar, é hora de espernear, de dizer não!

Não aceitaremos que nos reduzam a um objeto digno apenas de fazer rir. Sem voz, sem fala, sem poder de voto.

Vamos rir dos palhaços que nos estão a envergonhar. Passar por cima de sua colossal imbecilidade, com tratores e protestos.

Não seremos nós a piada de amanhã.

Luz

Trançou seus cabelos em flores pela última vez ao caminhar pela cachoeira de lágrimas. Seu planeta ficara menor e repleto de densa neblina. Pequenas luzes brilhavam ao seu redor como aura mágica e distante.

Não carregava o sorriso desinteressado que costumava carregar. E não olhou para trás, como costumava olhar. Caminhava precisamente em passos tortos e hesitantes.

Não tragou as memórias, cuspiu-as no ar. Não abotoou o vestido, deixou-o pender. E vagava como sereia hipnotizada, afogando corações em seu gélido mar. Atirava memórias ao longe, pois já não as podia carregar. Sufocava gritos silenciosos em uma frequência frenética de quem se asfixia.

Seus dias cinzentos começaram quando o mundo ficou maior que seu coração. Os corredores viraram vazios sufocantes. Os cantos da boca ficaram inumanamente pesados. E os olhos, tão brilhantes, afogaram num mar morto e inerte.

Lúcia apagou-se.